Julgamento de Saddam deve ser retomado nesta terça-feira
O Tribunal Especial que julga o ex-presidente iraquiano Saddam Hussein e sete de seus colaboradores deve recomeçar suas sessões com um novo juiz nesta terça-feira (24) após um mês de interrupção.
Fontes judiciais confirmaram que o juiz curdo Rauf Rashid Abdel Rahman foi escolhido para presidir o tribunal em substituição a seu colega Rizgar Mohammed Amin.
Amin, que também é curdo, alimentou as dúvidas e suspeitas que rondam o processo ao apresentar sua renúncia no início do ano alegando que tinha recebido pressões, especialmente do governo iraquiano e do Exército americano.
Embora ambas as partes neguem, o certo é que o magistrado foi alvo de uma campanha na imprensa, que o recriminava por ser muito brando e condescendente com o ditador.
Logo depois da renúncia de Amin, que foi justificada oficialmente por razões pessoais, foi anunciado que o vice-presidente do tribunal, o juiz Said Hamachi, presidiria a audiência prevista para amanhã.
No entanto, será Abdel Rahman que estará à frente do tribunal amanhã para continuar com o polêmico julgamento.
Saddam Hussein e sete de seus colaboradores estão sendo julgados pelo massacre de 148 xiitas em 1982, na aldeia de Djauil, em represália a uma tentativa fracassada de assassinato sofrida pelo ex-ditador ao passar pela região.
Nas sete audiências realizadas até o momento, várias testemunhas relataram torturas nas prisões de Saddam, mas nenhum deles conseguiu envolver diretamente os acusados.
O ditador driblou o assunto ao denunciar, em uma das últimas sessões, que tinha sido agredido e torturado pelas tropas americanas durante sua prisão, e assegurou que as marcas eram visíveis em seu corpo.
Por sua vez, a defesa manteve a linha utilizada de não reconhecer a legitimidade da corte e espera-se que amanhã volte a pedir a suspensão do julgamento alegando falta de medidas de segurança.
Desde o início das audiências, em 19 de outubro, dois advogados de defesa foram assassinados a tiros em Bagdá.
Neste complicado ambiente em que tramita o processo, representantes do atual governo expressaram seu desejo de que o julgamento seja concluído em até dois meses.
O menos preocupado com desenlace final --que pode ser a pena de morte-- parece ser o próprio ditador, que passa suas horas na prisão entretido ao escrever versos influenciados pelo Corão.
Segundo Mohammed Salah Armuti, um dos advogados que visitou recentemente Saddam Hussein no centro de detenção americano em Bagdá, o ditador terminou, em 28 de dezembro, sua última obra de poesia, e dedica grande parte de seu tempo à leitura do livro sagrado dos muçulmanos.
O livro é composto de poemas e histórias curtas, explicou Armuti, sem dar mais detalhes, ao jornal jordaniano "Al Arab al Iom".
Armuti, decano do Colégio Jordaniano de Advogados, integrou a delegação de sete advogados árabes e não-árabes que se reuniram ontem durante cinco horas com o ditador para preparar a sessão de amanhã.
Durante o encontro, Saddam disse a seus defensores, em tom de desabafo, ter sido "isolado do mundo exterior".
"No entanto, encontramos o presidente com o moral muito alto. O informamos sobre os principais assuntos do Iraque, do mundo e da região árabe, e em particular sobre a resistência [iraquiana], as pressões contra a Síria e a crise nuclear iraniana", disse o advogado.
Durante seus anos no poder, foi atribuída a Saddam a composição de vários romances ambientados no passado, que teriam sido publicado sob pseudônimo.
Um deles foi adaptado aos palcos e aplaudido em Bagdá antes da ocupação americana.